sábado, 11 de abril de 2009

AS BRUTALIDADES DA CALMA



74.
AQUELA QUE TANTO AMEI
canta
magra esperança
Junto errantes
primos mortos




75.
ELA CANTA E NEM AO MENOS SEI
diluído no toar de verso
que posso passar
de coisas
que não tenho




76.
ELA VIU O OLHAR VAZIO
dos nossos olhos derivaram
se acrescentando
na estação idiota




77.
ELA OUVIU PALAVRAS
MEGAFÔNICAS
o trem em movimento
rolar imundo
rumo ao
lugar do inferno




78.
ESTRADA. Estrada
estrada
estrada
estrada
estrada
sorrir




79.
QUANDO O ANJO APARECEU
no dia 20 de novembro
de 1977
o mundo ficou mais claro
estável
com possibilidades e com paisagem
nítidas
ricas




80.
A FELICIDADE SE TORNOU
POSSÍVEL
com a ternura do ser
quando vi
de maneira próxima
ao lado
E quando tomamos uma xícara
de café
juntos
ternamente
eternamente

24.11.1977




81.
E QUER O POEMA
lema, lenitivo
de tombos
terno amor
ao largo, ao parto, porto
de sobre vivências
e mal
e cal




82.
E QUER
o poema, lema
sopro vindo das coisas
fortes
mortes, cortes
faces quebradas calhas
malhas
e salas
tudo o que sobra
e vive
o ter
e o ser




83.
QUER O POEMA
pena, sempre
que nada o trai, o poema
E ouvir os pares
lares
pardos




84.
E QUER O POEMA
flecha
o que repete
e sente
ouve pois no fim
por mim




85.
SER É PAGAR
para amor
Ser é aval
aliado
Pelo ser
amar amado




86.
SER
é pagar
Pagar
para amor
e ser
amado




87.
PARA SER
e pagar
é valer
o amado




88.
SER É PAGAR. E pagar
para amar
sem ser (é pagar)
amado




89.
SER É PAGAR. E pagar
apagado
sem troco, recido
sem ser
(é pagar)




90.
NOS ARCOS MARCOS TURVOS
enoitecidos tombam
e impostam
fluidos e vívidos
tons de luar




91.
TONS DE LUAR QUE ABREM
NÍTIDOS
o grande olho
onde semeiam argentidades




92.
A ESCURA DOCE TREVA
feitas fascínio
lavadas vozes




93.
ESSES FANTASMAS
do fluido luar que amo
na porta morta com que fecho os olhos




94.
REUNIDOS
estes versos formam um estra-
nho tema
Fixos
eles me olham
toucador




95.
DO CARINHO QUE ADIVINHO
só precisava um minuto
Pouco tempo que fosse
no teu corpo magro
de ar desolado




96.
TERNOS OLHOS TE IMAGINO
opaca sensação
de seres imediatamente amados
(sim, opaca sensação
do sorrir, beatamente
de minuto pleno)




97.
NÃO ME CONCEDAS MAIS
que o minuto verdadeiro
quero o passar nervoso
o terno primeiro




98.
QUERO O PASSAR NERVOSO
desse onde pouco é tudo
um pouco do que
de sal, que sais
do sujo mar de Copacabana




99.
UM POUCO DE HÁLITO E ABRAÇO
e lembrar-te depois
de que tudo restava
de tudo bastava
no tempo curto dos favores
travos




100.
MAS SE EU ME CASASSE CONTIGO
decerto me cansaria
e a fadiga
causar o mal que não me dás




101.
POR ISSO UM MINUTO APENAS
para o carinho leviano
teus apressados olhos estudantes
batendo instantes em que te
vejo rápido




102.
AS DOBRAS DO VESTIDO SE
ENGOLFARAM
e ouço passar águas profundas
passam passos
A voz procura, acionando em
torno grandes flores de vento
Assim não se sentirá o não
que se aproxima




103.
NÃO SE VÊ MAIS QUE O RISCO DO
HORIZONTE
(desconcentradas ilhas)
O verso sai do mar com dedos
molhados de rimas




104.
POSSO DIZER MEUS MEDOS
falar por estas linhas
e cantar um antes
das revelações e do fim




105.
EM TUDO PESAM ÂNCORAS
mostruários de ossos
Calam-se seres e ares~
e esperam quietos
as aproximações




106.
MEU MEDO NÃO É DA NOITE
mas da chegada
das invenções
Tua chegada me atinge todo




107.
TUA PRESENÇA ME ATINGE TUDO
no teu silêncio mergulho
como se houvesse
um ponto aberto
sem dó
no peito




108.
MEU DESERTO É LÍQUIDO SILÍCIO
e dói não dar o primeiro passo
Perco-me em ti
e não direi mais nada
engulo e escrevo
espero




109.
ORIUNDA ONDA
onde queres
me levar?




110.
NAS ÁRVORES
antigas cantigas
de antigas ruas

Esverdeadas liberdades
abertas aspirações
madames deslumbradas
nascidas sentimentalmente
para o ver




111.
FEDERICO GARCIA
o som de uma luz trazida
e aziaga
te cortava como lâminas
de três gritantes guitarras
E, andaluz valente
passavas poesia no tempo

Federico Garcia
guardas civiles de touros
e de praças
não te cobriam de pedras
Por entre as rimas filtraram
vozes irmãs das estrelas
que trocariam contigo
essa barca sob o sol




112.
QUE AMAMOS
nas pessoas passadas
que amamos?

Páginas do livro
envelhecidas passam
o ria ruma do tempo
o declínio do ser

Visitantes do passado
vejo a morte e sua serenidade
despedidas
estrangeiros
nos separa o espaço

(Como não podermos estar
todos resumidos
num pátio de paraíso!)




113.
PROCURO A FALA ADEQUADA
e o dizer fácil
rara rima
como toque
de carimbo

Talvez não veja a originária poesia
na lucidez vazia
saída da velha lei

Quero o verso, quero o verso
que diga um pouco do mundo
a pular para outros tons
menores, porém profundos




114.
COBREM-ME COMPLETAS DÚVIDAS
do que escrevo
Poesia?
Sonho apenas que falo




115.
MEU AMOR EXPÔS A TOALHA À
MESA
e sentamos para nossas
torradas manteiga e chá

No ar a voz de um hino

As xícaras repousam
nas imaginações mais leves
como a beleza do que falamos

(7/11/84)




116.
IREMOS À GUERRA
corremos a praça

Reunidos cantos
à guerra entoemos

Ali reluzimos
seres brilhantes

amos

Não discutamos
nos encontraremos




117.
A PAISAGEM ALARGA
de cada lado
da estrada

No fim encontramos
o esplêndido mundo
destruído

Na esfera luminosa da manhã
vesperal da paisagem
para sempre da tarde




118.
A CANÇÃO ERA FÁCIL
e plácida
matinês burguesas da menina
pássaro pousado ao lado
olhar na tarde

Lenços adejam breves
pelos degraus da escada prima
e no risco do rio a estrada calma
desliza sobre seu silêncio


2 comentários:

Maria Costa disse...

Como a andorinha regresso aqui em cada dia (primavera).

ROGEL SAMUEL disse...

amiga, foi você quem descobriu esse livrinho que estava esquecido...

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